domingo, 23 de agosto de 2015

Carta para você



Dia desses, eu estava trocando os canais da TV, tentando achar algo para me tirar do tédio, quando começou a passar aquela série que você ama. Ou amava. 
No mesmo instante, me lembrei de você e das maratonas de séries que fazíamos. Nunca gostei de The Vampire Diaries, mas amava ficar olhando para você enquanto assistia. Na verdade, eu amava tudo em você. Ainda amo. Sempre soube que você nunca poderia ser minha. Você tinha asas e paixão pela vida. Você dizia que me amava, mas eu te amava em dobro. E um dia, você foi embora. Não disse por que nem pra que. Não deu nem tempo para eu me despedir. Quando acordei você já estava longe. Eu consegui ver o seu corpo, mas você não estava mais lá. Um caminhoneiro bêbado e inconsequente já havia te tirado de mim.
Os primeiros dias foram os piores. Nunca tinha sentido tanta dor na minha vida. Eu sentia como se tivessem aberto o meu peito e arrancado o meu coração sem anestesia. O Travis passava o dia inteiro na frente da porta principal esperando você chegar. E quando eu o chamava, ele apenas me olhava e balançava o rabo sem sair do lugar.
Um ano já se passou e o meu coração ainda sangra. Acho que nunca vai parar. As pessoas diziam que aos poucos eu me acostumaria com a dor, mas agora, eu também tenho que conviver com a saudade. Sinto falta do seu cheiro, das gordurinhas da sua barriga que você sempre odiou, dos seus pequenos olhos que pareciam enxergar a minha alma, daquela calça de moletom que você vestia apenas nos dias chuvosos, do seu jeito descontraído de não se importar com a opinião das pessoas e fazer o que bem entender, dos bilhetes que você deixava para mim sempre que saia, do brilho nos seus olhos sempre que conhecia um lugar novo, dos textos que você escrevia que sempre me faziam chorar, das comédias românticas que você assistia todo domingo com um balde de pipoca, da forma escandalosa como você ria, do modo como você apertava o meu braço quando assistia um filme de terror, da sua mão pequena e macia que eu fazia questão de deixar perto da minha, do jeito cuidadoso como você cuidava do seu cacto Robertchay. Ah, ele continua aqui viu? Eu o coloco na janela do nosso quarto todos os dias na esperança de que você possa ver.
As coisas aqui continuam na mesma. A Dilma ainda é presidente e aquelas manifestações, que você amava participar, estão cada vez mais frequentes, eu estou no ultimo semestre da faculdade e estou trabalhando em um escritório incrível, ontem o Pedro e a Luiza me levaram em uma boate na Augusta, mesmo eu não concordando, e dormiram aqui em casa, meus pais vêm jantar todas as quartas, e eu continuo fotografando pessoas, objetos e lugares.
Não sei por que escrevi essa carta se você nunca vai ler. É que as vezes bate uma saudade sabe? Eu sinto que, como diz aquela autora que você amava, algumas coisas não acabam quando terminam. E a nossa história ainda não acabou. Ah, mais uma coisa, eu te amo muito.

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