sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Meu pior pesadelo


Sinalizei para o barman trazer mais uma dose dessa bebida rosa que eu estava tomando desde que cheguei. O que aconteceu comigo? Lembro que odiava lugares cheios onde as pessoas se beijavam sem nunca terem trocado uma palavra se quer, para, no dia seguinte, se orgulhar dos tantos desconhecidos que beijou e de quem nem se lembra dos nomes. Sempre gostei da conquista. Do jeito surpreso como você me olhou quando eu disse que gostava de arctic monkeys. Do frio na barriga que dava toda vez que eu te via caminhar em minha direção com seu sorriso irônico estampada na cara.
Joguei a cabeça para trás e senti o liquido rosa queimando a minha garganta. A musica estava alta. Nem prestei atenção na letra. Comecei a dançar com um cara alto e musculoso. Era bonito, mas não era você. Ele pegou na minha bunda. Eu não liguei. E lá estava eu com a língua na garganta dele. Ele não provocava os arrepios na minha pele que você provocava, muito menos fazia com que eu me sentisse especial.
Uma imagem sua surgiu na minha mente e eu me perguntei para onde tinha ido aquela garota corajosa e independente por quem você dizia estar apaixonado. Aquela garota que não gostava da normalidade, que cortava o cabelo de um jeito diferente, que usava roupas que a diferenciavam da multidão e que lia mais livros em um mês do que todos os seus amigos leriam em um ano. Essa garota não estava em casa. Talvez ela não voltasse mais, e essa foi a pior parte de te perder. Eu não só te perdi. Eu me perdi nesse labirinto confuso de sentimentos. E no meu lugar, uma nova Mariana assumiu o controle. Uma Mariana rasa, previsível, com medo do desconhecido e extremamente insegura.
O pior é que eu sei que em parte a culpa é minha. Eu fui ingênua. Eu te entreguei todos os meus sonhos e o meu coração assim, de bandeja. Achei que você iria curar os antigos machucados, mas não. Cada dia você quebrava uma parte diferente do meu coração. Algumas vezes, você juntava os cacos e colava só para poder quebrar novamente. Era doentio. Mas mais doente era eu, que permitia você fazer isso. Até que um dia, você se cansou. Era tedioso demais ficar brincando com um coração remendado, né? Aí você simplesmente o jogou fora, tornou os meus sonhos em pesadelos, e foi atrás de novos corações ingênuos. E eu me tornei meu pior pesadelo. Um pesadelo com cabeça, olhos, nariz e boca. Com dois pulmões e um estômago, mas sem coração. Um pesadelo que, agora, saia todas as noites em busca de alguém que me faça sentir algo que me motive a continuar vivendo.
Cheguei em casa e me deparei com uma foto nossa no carrossel daquele parque de diversões. Foi a nossa primeira viagem juntos e a nossa primeira vez. Pensei que já tínhamos superado todos os comentários maldosos da minha família e dos meus amigos. “Ele não é o bastante para você, Mari”  Agora, tudo o que eu queria era queimar essa foto e todas as suas lembranças que eu ainda cultivava, até virarem pó. Para variar, eu comecei a chorar. Esperava que um dia, através das lagrimas, eu te lavasse da minha memoria.


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