quinta-feira, 23 de julho de 2015

Todas as vezes em que você foi embora


Tudo estava acontecendo naturalmente. Caixa de suco de pêssego, ok. Bolacha recheada, ok. Miojo, ok. Pipoca de micro-ondas, ok. Brigadeiro enlatado, ok. Pera aí, eu nunca gostei de brigadeiro enlatado, só comprava porque você dizia que tinha um gosto de caramelo no final. Nunca encontrei esse gosto. Mas por que essa lembrança agora? Justo quando as minhas feridas abertas do coração se cicatrizaram, o meu cérebro me prega uma palhaçada dessas arrancando todas as minhas casquinhas e deixando minhas feridas expostas novamente?
Estava devolvendo a lata de brigadeiro quando senti um cheiro familiar. Não podia ser. Quando me virei para olhar, lá estava você, entrando no corredor de doces com uma mão no carrinho de compras e a outra na cintura de uma loira alta. Merda. Merda. Merda. Me virei rapidamente para fingir  que não te vi.
- Lia?
Você ainda me reconhece? Porque olha, desde que você foi embora, todas as vezes que me olho no espelho eu não me reconheço. Meu cabelo está sem brilho, minhas unhas não param de quebrar, a esperança parou de iluminar e dar vida aos meus olhos e eu emagreci, pelo menos, uns dez quilos. Aliás, eu queria dar um conselho para essas pessoas que fazem dietas malucas: entregue seu coração, como prato principal, para o primeiro idiota que aparecer.
- Oi Leo – tive vontade de te socar e mandar você se mudar para o outro lado do mundo, mas você estava ainda mais bonito do que eu me lembrava. Depois de um tempo, desviei meu olhar de você para a loira ao seu lado. Meu Deus. Ela era modelo? Ou só aquelas garotas de Tumblr que eu sempre reblogava?
- Ah essa é a Manu. Manu essa é a Julia. Eu e a Manu estamos... hm.... é... nos conhecendo .
Percebi, no olhar que a tal de Manu te lançou que vocês já estavam juntos há algum tempo. Tudo bem sabe, não precisava mentir. Podia falar na minha cara que vocês estavam namorando, se amando ou se comendo. Você nunca teve papas na língua e, na real, aquela sua cara de pena estava me dando vontade de vomitar.
- Ah, ta. Eu tenho que ir agora, meu namorado está me esperando. – namorado? – Tchau.
Eu sabia desde o começo que nosso namoro não ia dar em nada. Mas eu sou teimosa, você sabe. Duas almas perdidas em um mundo tão grande que se encontraram em uma festa de sertanejo cafona. Destino? Pode até ser.
A verdade é que me apaixonei por você. Quebrei meu coração varias vezes para ele se encaixar no seu. Vai dar certo, é só uma fase. Extra, Extra, não era uma fase. Você foi embora. Me largou chorando no sofá da sala e bateu a porta sem nem olhar para trás. No lugar daquelas adoráveis borboletas que moravam no meu estomago e daquela euforia que crescia em mim cada vez que eu te via, eu fui substituída por vazio e dor. E tem horas que aperta sabe? Dá um nó no peito, uma trovoada no estomago, uma chuva nos olhos e uma constelação de soluços. Esse é o meu corpo demonstrando a falta que você me faz.
- Boa noite – disse o caixa do mercado
- Boa noite, posso ir buscar rapidinho uma coisa que eu esqueci? – ele apenas concordou.
Corri para o corredor de doces e peguei uma lata de brigadeiro. Todas as feridas já estavam ali, sangrando novamente mesmo. E eu sentia tanto a sua falta. Desde as vezes que nós demos banho em todos os cachorros da minha vizinha, até as nossas intermináveis brigas naquele barzinho que nossos amigos frequentavam. Minhas amigas diziam que você não era o cara certo pra mim. Mas então quem era? Nós estamos em pleno século XXI, ainda existe essa baboseira de “o cara certo para você”?
Quando eu estava saindo do supermercado, dei de cara com você e a sua Tumblr girl se beijando apaixonadamente. Hoje definitivamente não era o meu dia. Olhei para a cena e me lembrei do modo como você me beijava, sem pressa. Senti uma lagrima escorrendo e comecei a andar olhando fixamente para o meu carro. Olha pra frente, respira, segura o choro. E se eu desse uma olhadinha rapidinho? Cérebro: não, coração: sim. Olhei. E você me olhava de volta. Estava tão lindo parado ali, me olhando, com as compras na mão. Por que você foi tão idiota? Nós podemos fingir que tudo o que aconteceu foi só um sonho ruim. Só então, me dei conta de que a sua namorada irritantemente perfeita tinha sumido. Ela era só uma miragem? Acenei. Você acenou de volta, e deu aquele sorriso torto que mostrava sua covinha. A loira voltou, agora dentro de um carro que valia três vezes o valor do meu apartamento, e parou na sua frente. Você falou alguma coisa e ela foi embora. Meu coração começou a bater mais rápido e meu cérebro não parava de me lembrar do quanto vocês eram idiotas. Você correu na minha direção e me beijou intensamente. Ah que saudade.
- Lia a gente não pode ficar juntos. – pera aí, o que?
- Então, por que você me beijou? – minha voz começou a falhar.
- Eu sinto a sua falta. Muito. Mas eu não sou bom o suficiente para você – dizendo isso ele se virou e foi embora, me deixando ali, com varias perguntas na cabeça.

O vazio começou a tomar conta de mim, o meu coração se despedaçou e alguém jogou inseticida naquelas, poucas, borboletas que voltaram a querer se hospedar no meu estomago. Adivinha quem estava chorando por sua causa? Peguei minhas compras e entrei no carro. Olhei para o banco do carona e dei boa noite à minha nova companheira desde que você foi embora. A solidão.

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